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2026#27 Blended finance: a chave para destravar o financiamento climático
Regulação Internacional

2026

#27 Blended finance: a chave para destravar o financiamento climático

Blended finance: chave para destravar o financiamento climático

Um dos instrumentos mais relevantes para ampliar o financiamento climático por meio do mercado de capitais, o blended finance combina recursos de fomento (como capital público concessionário ou filantrópico) com com capital privado, reduzindo riscos, ajustando retornos e tornando viáveis projetos que, em condições tradicionais de mercado, não avançariam.

Ao alinhar o perfil de risco aos diferentes apetites de investidores, o blended finance amplia a capacidade de atração de capital para iniciativas com impacto social, ambiental e de desenvolvimento econômico. Por isso, vem ganhando espaço como mecanismo estratégico para mobilizar recursos privados em direção aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

O tema está no centro das discussões em fóruns internacionais, como o G20, conferências da ONU (Organização das Nações Unidas), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês). Para o Brasil, trata-se de uma oportunidade concreta de posicionar o mercado de capitais como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono.

“O financiamento da transição climática, justa e inclusiva abre uma oportunidade sem precedentes para atrair capital estrangeiro, e o blended finance é um aliado fundamental nessa jornada”, afirma Fernanda Camargo, diretora da Anbima e líder da Rede ANBIMA de Sustentabilidade. 

"O blended é um instrumento que permite dar escala a projetos de pequenos produtores e cooperativas, essenciais para a transição, mas que dificilmente acessariam financiamento de outra forma”

Fernanda Camargo

Mulher branca, com cabelos castanho claro lisos, sorrindo. Veste uma blusa preta e colar de contas, com pintura ao fundo.

Programa do Tesouro Nacional supera expectativas

terceiro leilão do Programa Eco Invest Brasil, divulgado no final de janeiro, tornou-se o maior já realizado, superando em mais de dez vezes a demanda inicialmente estimada pelo Tesouro Nacional. Isso evidenciou o apetite do mercado por estruturas de financiamento climático bem desenhadas.

Um dos destaques desta terceira edição foi a introdução do hedge cambial, mecanismo inédito no programa, porque reduz um dos principais riscos percebidos por investidores estrangeiros em operações de longo prazo no Brasil. Ao oferecer proteção contra a variação do câmbio, o instrumento amplia a previsibilidade dos retornos e a segurança jurídico-financeira das operações, favorecendo a entrada de capital externo, especialmente em estruturas de private equity e venture capital.

Nesta edição, foram demandados cerca de R$ 24 bilhões em recursos públicos com função catalítica, ou seja, exercendo o papel de viabilizar e acelerar investimentos privados que, sozinhos, não ocorreriam ou ocorreriam em menor escala. Se essa demanda “tivesse sido atendida pelo Tesouro, teria mobilizado um total de R$ 79,6 bilhões em potenciais investimentos em empresas", explica o Reset. O Tesouro homologou R$15 bilhões, destinados à estruturação de instrumentos de mitigação de riscos capazes de viabilizar aproximadamente R$ 53 bilhões em investimentos em equity, voltados principalmente a startups e pequenas e médias empresas inovadoras.

Esse montante será direcionado a projetos enquadrados em quatro eixos prioritários do Plano de Transformação Ecológica – Novo Brasil:

  • Transição energética: 64,5%
  • Bioeconomia: 16%
  • Infraestrutura verde para adaptação: 10,4%
  • Economia circular: 9,1%
     

Entre os projetos de maior volume estão iniciativas ligadas à produção de combustível sustentável de aviação (SAF), com R$ 12,2 bilhões, e cadeias de baterias e veículos elétricos, com R$ 9,3 bilhões.

Confira as instituições financeiras selecionadas e o valor aplicado por cada uma.

Como funciona o blended finance do Programa Eco Invest Brasil

Fluxograma mostra a dinâmica financeira do Programa Eco Invest Brasil, em que os recursos saem do Fundo Clima e chegam até os tomadores/projetos, passando por várias entidades e etapas.

Fonte: Tesouro Nacional

  • Os recursos iniciais do Eco Invest Brasil são provenientes do Fundo Clima, instrumento coordenado pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima) e administrado pelo BNDES, destinado a financiar projetos de mitigação e adaptação à mudança do clima. Esses recursos são combinados com capital privado, formando a estrutura de blended finance. 
  • O programa realiza leilões, nos quais o Tesouro Nacional seleciona instituições financeiras para gerir recursos públicos. Essas instituições utilizam esses recursos para estruturar operações com mecanismos de mitigação de riscos, como garantias e proteção cambial, criando condições para a captação de capital privado. 
  • Esse capital privado é captado tanto em real (via mercado doméstico) quanto em dólar (via bancos internacionais e mercado de capitais globais), com a possibilidade de proteção cambial. Os recursos totais são então direcionados a fundos ou veículos de investimento que aportam em empresas e projetos da transição ecológica (tomadores), ampliando significativamente o volume total de investimentos.

Panorama global 

Em 2024, o mercado global de blended finance mobilizou US$ 15,5 bilhões em 84 operações, registrando o segundo maior volume dos últimos seis anos (abaixo do recorde observado em 2023). O clima permanece como eixo central, respondendo por 70% de todos os fluxos de investimento entre 2019 e 2024, direcionados a iniciativas de mitigação e adaptação climática.

Gráfico 1: Mercado de blended finance climático, fluxos financeiros anuais de 2019 a 2024. Dados: US$ 8,5 bilhões em 2019. US$ 9,7 bilhões em 2020. US$ 14,2 bilhões em 2012. US$ 9,1 bilhões em 2022. US$ 20,2 bilhões em 2023. US$ 15,5 bilhões em 2024.. Gráfico 2: Mercado de blended finance, número de negócios por ano de 2019 a 2024. Dados: 48 operações em 2019; 54 em 2020; 83 em 2021; 87 em 2022; 94 em 2023; e 84 em 2024.

Evolução das operações de blended finance focadas em clima, de 2019 a 2024 (Fonte: State of Climate Blended Finance Fall 2025)

“Cinco anos atrás, o blended finance era um instrumento desconhecido, houve uma grande evolução", avalia Marco Gorini, CEO do Grupo Din4mo e conselheiro da Aliança pelo Impacto. Ele reconhece os avanços, mas ressalta que a velocidade ainda é insuficiente diante das exigências impostas pela crise climática. “O risco de não fazer nada em relação às mudanças climáticas só aumenta. É preciso criar estruturas de incentivo que estimulem, de fato, um movimento de transição”, defende.

O principal desafio, segundo ele, é cultural. Quando uma operação de blended é estruturada, reúnem-se parceiros com atividades e culturas diferentes para viabilizar projetos elegíveis para receber capital. 

“São arranjos que exigem uma estrutura interna e obrigatória de governança, que significa trabalhar junto. Ninguém consegue fazer sozinho projetos desse tamanho e complexidade”

Marco Gorini

Homem branco, com cabelos preto e curtos, sorrindo, com camisa social clara, em ambiente com plantas ao fundo.

Jornada de aprendizado

Para capacitar profissionais dos mercados financeiro e de capitais sobre blended finance, a Rede ANBIMA de Sustentabilidade promoveu a Jornada de Blended Finance 2026. A trilha, formada por três workshops online, traz conceitos, fundamentos e exemplos nacionais e internacionais que podem ser replicados, além de tratar de atração de capital e métricas.

SAIBA MAIS SOBRE BLENDED FINANCE
 

O que é

É uma forma de investimento que une recursos públicos, de fomento ou filantrópicos a capital privado para financiar projetos de impacto social, ambiental ou de desenvolvimento econômico. Comumente usado em economias emergentes, o objetivo é atrair capital comercial para projetos que beneficiem a sociedade e também forneçam retorno financeiro atrativo aos investidores privados.

Como funciona

Há dois grandes pilares na estrutura do blended: o capital catalítico e o capital comercial. O capital catalítico é um recurso com origens filantrópicas, públicas ou de fomento que é utilizado, principalmente, na fase de preparação, formação e desenvolvimento do projeto. O papel desse recurso é ajustar o risco e impulsionar o retorno dos projetos às expectativas do mercado tradicional. Assim, viabiliza-se a captação do capital comercial, que são recursos de investidores que buscam principalmente o retorno dos ativos. 

Quem faz

Em geral, os principais atores incluem bancos de desenvolvimento e multilaterais, fundações, agências de desenvolvimento, investidores de impacto e investidores comerciais, como fundos de private equity e venture capital.

Fonte: GoBlended, OCDE, World Bank