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2026#28 Natureza em risco, mercado de capitais em alerta
Regulação Internacional

2026

#28 Natureza em risco, mercado de capitais em alerta

Natureza em risco, mercado de capitais em alerta

À medida que os serviços ecossistêmicos se degradam, aumentam também os riscos físicos para a economia. Entre eles estão interrupções em cadeias de suprimentos, danos a ativos, elevação de custos operacionais e maior pressão sobre receitas e seguros. 

De acordo com relatório do Banco Mundial, 46% dos empréstimos concedidos por bancos brasileiros a empresas, o equivalente a R$ 811 bilhões, estão expostos a interrupções financeiras devido à dependência de serviços ecossistêmicos.

Natureza e biodiversidade são parte fundamental da infraestrutura que sustenta a economia global, que é dependente de serviços ecossistêmicos, como: 

  • Regulação e fornecimento de água

  • Regulação dos padrões de chuva

  • Regulação do clima

  • Regulação da qualidade do solo

  • Retenção de solo e sedimentos

  • Polinização

  • Provisão de biomassa

  • Controle biológico de pragas

  • Filtração do ar

  • Manutenção de populações e habitats

  • Acesso a material genético, entre outros

Segundo o Fórum Econômico Mundial, mais de 50% do PIB global depende moderada ou fortemente dos serviços prestados pela natureza, que hoje se encontram sob intensa pressão decorrente das atividades humanas. O The Global Risks Report 2026destaca que a perda de biodiversidade e o colapso dos ecossistemas são o segundo maior risco global no horizonte de dez anos, atrás apenas dos eventos climáticos extremos. (Global Risks Reports 2026, p.19)

Como a degradação da natureza afeta setores e carteiras

A perda de habitats, a fragmentação de ecossistemas e a mudança no uso da terra afetam cadeias produtivas, elevam custos operacionais, reduzem a disponibilidade de insumos e impactam o valor de ativos em diversos setores, especialmente em economias intensivas em recursos naturais, como o Brasil.

A degradação de ecossistemas pode gerar perdas de cerca de US$ 430 bilhões por ano para oito setores‑chave da economia global, entre eles produção de alimentos, o varejo de bens de consumo e o de alimentos e bebidas. Em cinco anos, seria um prejuízo de US$ 2,15 trilhões, apenas considerando riscos físicos associados à perda de serviços ecossistêmicos. (Ceres, Nature’s Price Tag: The Economic Cost of Nature Loss, 2025)

Tabela com duas colunas, apresenta valores financeiros por setor, em bilhões de dólares (US$ bi). Os dados indicam: produção de alimentos com 253,8; varejo de bens de consumo com 69,0; varejo de alimentos e bebidas com 54,3; florestas e papel com 42,1; químicos com 11,0; bens domésticos e pessoais com 3,8; metais e mineração com 2,7; e biotecnologia e farmacêuticas com 0,8. Fundo em tons de amarelo e cabeçalho em azul escuro destaca as categorias.

Diante da dimensão dos riscos econômicos, a análise de dependência de serviços ecossistêmicos vem sendo incorporada como insumo relevante para avaliação de risco de crédito, seleção de ativos e definição de estratégias de longo prazo. De acordo com o levantamento do Ceres, entre os setores mais expostos e dependentes da natureza estão: 

  • Agronegócio e florestal

  • Papel e celulose

  • Mineração e metais

  • Energia (especialmente hidrelétrica e biomassa)

  • Saneamento e água

  • Infraestrutura e imobiliário

Riscos à natureza já afetam bilhões em ativos no Brasil, aponta TNFD

O Brasil, país mais biodiverso do mundo, começa a perceber com mais clareza que sua riqueza natural é, ao mesmo tempo, um grande ativo e uma fonte relevante de vulnerabilidades financeiras. 

“Setores como agricultura, silvicultura, mineração e energia têm dependências e impactos moderados a altos sobre a natureza que, se não forem compreendidos ou tratados, podem levar a consequências significativas”, afirma Alan Gomez, lead de Engajamento de Mercados para América Latina e Caribe da TNFD, em entrevista exclusiva à Conexão ESG.  

Riscos interligados de clima e natureza já estão se traduzindo em impactos financeiros no país. Nos últimos anos, a recorrência e a intensidade de eventos extremos aumentaram, incluindo as enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul em 2024, que afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas e causaram perdas estimadas em US$17 bilhões, bem como secas no Pantanal e na Amazônia.

A seca observada no Brasil em 2024 foi a mais intensa e ampla desde o início dos registros em 1950, de acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), e já entrou no radar do sistema financeiro como risco relevante de longo prazo. “A seca foi identificada como uma das ameaças de longo prazo mais significativas por 84 instituições financeiras na Pesquisa de Estabilidade Financeira anual do Banco Central do Brasil”, destaca Gomez. 

Homem branco, com cabelos curtos escuros, olhando diretamente para a câmera com leve sorriso. Veste camisa social azul clara e blazer escuro. O fundo é liso, em tom neutro. Utilização de ícone de abertura de aspas, na cor amarela, aplicado junto à foto do homem.

Investidores e proprietários de ativos estão despertando para o fato de que o risco relacionado à natureza é material e estão exigindo que as empresas o reconheçam. A economia real também está olhando para as dependências e os impactos em suas operações e cadeias de valor, percebendo que a natureza sempre esteve presente em todas as etapas, mas em grande parte não contabilizada e subvalorizada.

Alan Gomez, TNFD

Natureza, biodiversidade e o novo mapa de riscos do mercado

A TNFD propõe que empresas e instituições financeiras identifiquem, avaliem e divulguem riscos e oportunidades relacionados à natureza, em uma estrutura alinhada à já conhecida TCFD (Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima): governança, estratégia, gestão de riscos e métricas/metas ligadas ao clima – a mesma lógica incorporada pelo IFRS S2 (divulgações de informações financeiras relacionadas ao clima), que integra a Resolução CVM 193.

Na prática, isso significa:

  • Mapear dependências (por exemplo, insumos agrícolas dependentes de polinizadores, ou geração hidrelétrica dependente de regime de chuvas);

  • Identificar impactos sobre ecossistemas (desmatamento, contaminação de água, perda de habitat);

  • Avaliar como essas dependências e impactos podem afetar fluxos de caixa futuros, custos, continuidade operacional e reputação.

A Resolução CVM 193, de outubro de 2023, determina que companhias abertas no Brasil divulguem relatórios de sustentabilidade baseados nas normas internacionais IFRS S1 e S2. A obrigatoriedade começa em 2026, com foco em riscos e oportunidades de sustentabilidade, climáticos e financeiros, colocando o país na vanguarda da transparência ESG.

COP17 e a consolidação da natureza como risco material

A COP 17 da Biodiversidade, conferência global da ONU em que os países negociam metas para proteger a natureza e conservar a biodiversidade, será realizada em Yerevan (Armênia), em outubro de 2026. O encontro deve reforçar a implementação das metas globais de biodiversidade e aprofundar a discussão sobre mobilização de recursos financeiros para proteção e restauração de ecossistemas, em especial em países megadiversos como o Brasil.

No contexto de alinhamento entre metas ambientais globais e fluxos financeiros, o ISSB está trabalhando em um projeto para aumentar as divulgações sobre natureza, de forma complementar à IFRS S1 e S2 (requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima, respectivamente).  O documento preliminar do projeto deverá ser lançado durante a conferência da ONU. 

Esse movimento tende a:

  • Elevar o padrão esperado de disclosure sobre dependências e impactos das empresas na natureza;

  • Aproximar ainda mais TNFD e ISSB, dando mais clareza e comparabilidade às informações; 

  • Acelerar a diferenciação entre empresas e setores mais preparados, com metas, estratégias e indicadores claros, e aqueles mais vulneráveis ou atrasados.

“O ISSB continua concentrado nos riscos e oportunidades que são criados pelos impactos e dependências de uma empresa em relação à sustentabilidade. Será importante que os stakeholders brasileiros participem dessa ocasião para ajudar o ISSB a garantir que continue construindo uma base verdadeiramente global”, afirmou a instituição em entrevista exclusiva à Conexão ESG. 

"Empresas brasileiras que tenham oportunidades relevantes relacionadas à biodiversidade que afetem seu fluxo de caixa, custo de capital ou acesso a capital, deverão comunicar essas informações da mesma forma que divulgam informações sobre riscos." ISSB

Riscos e oportunidades para o Brasil

A combinação de altíssima biodiversidade, base produtiva intensiva em recursos naturais e rápida convergência regulatória coloca o Brasil em uma posição singular. O risco é elevado, especialmente se a degradação de biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica se aprofundar, mas o potencial de oportunidade também é significativo.

Nesse contexto, ganham relevância iniciativas como:

  • Projetos de restauração de áreas degradadas, com potencial de gerar emprego, renda local e captura de carbono em larga escala;

  • Manejo florestal sustentável e modelos de uso múltiplo da floresta, que conciliam produção, conservação e geração de créditos de natureza;

  • Soluções baseadas na natureza para mitigação e adaptação climática, como recuperação de vegetação em áreas de mananciais, infraestrutura verde urbana e proteção de manguezais e áreas alagáveis;

  • Desenvolvimento de fundos temáticos de natureza e biodiversidade, voltados a bioeconomia, ativos florestais, agricultura regenerativa e cadeias produtivas de baixo impacto;

  • Instrumentos financeiros vinculados a metas de conservação e uso sustentável, como títulos e empréstimos atrelados a indicadores de desmatamento, restauração, uso da água ou conservação de habitats.

Em última instância, quem entender que a natureza é infraestrutura econômica essencial, e não cenário de fundo, sairá na frente na disputa por capital, mercados e futuro.