|
A perspectiva de quem já reporta
A mudança pegou o mercado no meio do caminho. Pesquisa conduzida pela CVM entre abril e novembro de 2025 mostrava que cerca de 70% das companhias abertas entrevistadas já tinham iniciado algum esforço de adaptação aos padrões IFRS S1 e S2, e aproximadamente 10% confirmaram a intenção de aderir voluntariamente com base no exercício de 2025. Entre as mais avançadas, predominavam empresas com mais de 1 mil colaboradores e receita líquida igual ou superior a R$ 500 milhões.
Algumas empresas que compõem esse grupo já se manifestaram sobre a mudança regulatória. Vale, Renner e Natura informaram que não pretendem recuar e seguirão divulgando riscos e oportunidades associados à sustentabilidade e ao clima nos padrões da ISSB, mesmo sem obrigatoriedade. Ainda em junho, a Vale publicou o relatório IFRS 2025, incorporando, além do clima, quatro novos riscos, como o de barragens e direitos humanos (Valor Econômico, 15 de junho).
Klabin, Prumo Logística e Rede D'Or estão entre as companhias abertas que assinaram a Declaração em Defesa do Reporte Financeiro de Sustentabilidade no Brasil, que pede à CVM a retomada da obrigatoriedade.
O reporte sobre clima e ESG como diferencial competitivo
Os números já publicados pelas empresas pioneiras mostram a dimensão do que está em jogo. Segundo artigo do Capital Reset, a Vale investiu US$ 257 milhões em gestão de riscos climáticos somente em 2024. A Renner registrou R$ 10 milhões em perdas com inundações e R$ 18 milhões com ondas de calor fora de época, além de riscos de transição entre R$ 148 e R$ 172 milhões ao longo de dez anos. A Irani identificou riscos de R$ 67 milhões com eventos climáticos extremos e oportunidades de R$ 377 milhões com o aumento da demanda por embalagens sustentáveis. Não são narrativas: são dados financeiros auditados, do tipo que investidores institucionais globais precisam para tomar decisões de alocação de capital.
Segundo Takahashi, em entrevista ao jornal O Globo (10 de junho), a adoção dos reportes seria fundamental para informar a fundos e investidores estrangeiros mais dados para alocação de investimentos locais. “O reporte agrega algum custo, sim, mas a verdade é que há benefícios para as empresas, como transparência, comparabilidade e interoperabilidade, sobretudo o benefício reputacional”.
Em um mercado em que a maioria pode optar pelo silêncio, quem falar com clareza, consistência e auditoria independente tende a ser ouvido primeiro. O Brasil dispõe de vantagens comparativas expressivas em ativos naturais, energias renováveis e cadeias produtivas de baixo carbono, que o colocam em posição de liderança global. Abrir mão de padrões robustos de reporte pode enfraquecer a conversão desse potencial em capital internacional.
Próximos passos
A CVM afirma que acompanhará a adoção voluntária dos reportes, realizará avaliação contínua da regulamentação e está aberta a revisitar a discussão sobre obrigatoriedade no futuro, à luz da experiência prática.
Já a Anbima afirma que seguirá colaborando com a capacitação do mercado, promovendo o diálogo entre os diversos stakeholders e produzindo conhecimento técnico para apoiar as instituições na jornada de transparência, fortalecendo as finanças sustentáveis.
Um exemplo dessa atuação é a Jornada IFRS, trilha de conhecimento iniciada em 2025 para apoiar profissionais do mercado financeiro e de capitais no entendimento e no uso prático dos padrões IFRS S1 e S2. A iniciativa segue a pleno vapor: após as ações realizadas no ano passado (como uma reunião aberta com a CVM e quatro workshops técnicos sobre fundamentos, governança, materialidade e casos de uso em portfólios), a jornada incluiu, neste ano, a divulgação de um e-book de engajamento e a elaboração de umguia técnico que ensina o passo a passo para apoiar a adoção dos padrões IFRS S1 e S2 no dia a dia das instituições.
|