ANBIMA Summit: CBIO coloca o Brasil na liderança de créditos de descarbonização
Foco está em ampliar a liquidez desse mercado e incorporar novos players, tanto emissores como compradores, além de atrair fundos e empresas com compromisso de zerar as emissões
O mercado de CBIOs está em alta. As perspectivas são positivas, principalmente, devido à segurança sobre a origem do crédito de descarbonização, tendo a certeza de que, na ponta, há a efetiva redução de CO2 — uma tonelada de dióxido de carbono por cada CBIO. "Ao garantir o lastro do processo na operação e, depois, com a estruturação do ativo, conseguimos garantir e dar segurança da lisura das transações. O Brasil passa a ser uma das principais praças de redução de emissões e, portanto, da geração de créditos de descarbonização para o mundo”, destacou Evandro Gussi, presidente da UNICA – União da Indústria de Cana-de-Açúcar, ao participar de painel no ANBIMA Summit, nesta sexta, 29.
Grande parte do sucesso vem da transformação do crédito de carbono em um ativo financeiro, efetivamente negociado, registrado e com todos os controles que o mercado já desenvolveu para os instrumentos negociados.“O Brasil vai ser o Oriente Médio do mercado de crédito de carbono; temos potencial natural, seja no mundo de créditos voluntários de preservação e reflorestação, seja na parte de substituição de combustíveis, que já fomos líderes e temos o programa de etanol há décadas, ou em energia renovável”, ressaltou Luiz Masagão, presidente do Fórum de Negociação da ANBIMA e diretor de Tesouraria do Santander
Nesse sentido, o foco da ANBIMA está em ampliar a liquidez desse mercado e incorporar novos players, tanto emissores como compradores, além de atrair fundos de investimentos e empresas com compromisso de zerar a emissão de carbono. “O produto já nasceu, é robusto e tem boa infraestrutura de mercado. Temos muito a crescer e a desenvolver”, assinalou Masagão.
CBIOs em contexto — O crédito de descarbonização é um instrumento financeiro do RenovaBio, que começou a partir da observação da redução de emissões de carbono que o etanol ou qualquer biocombustível permite ao substituir um combustível fóssil. Conforme explicou Evandro Gussi, da associação dos produtores de açúcar e etanol, é feita a aferição da cadeia de produção para saber o volume de emissão e quanto há de redução em comparação se tivesse sido usado um combustível fóssil. Ou seja, quanto de emissão de gases o etanol emite em todo o seu ciclo de produção, desde a plantação da cana, comparado a quanto seria essa mesma emissão na cadeia de combustível fóssil.
“Nesta diferença, a cada tonelada de carbono que eu deixo de emitir, eu posso gerar um CBIO, um crédito de descarbonização. Esse CBIO passa a ser negociado pelo sistema financeiro organizado, podendo abater e resolver as metas de descarbonização que as distribuidoras de combustível têm, porque elas precisam ficar mais limpas, e também outras empresas e outros players de mercado que queiram reduzir suas emissões”, detalhou Gussi.
A ANBIMA trabalhou desde a confecção da lei que criou o RenovaBio e teve a participação na formatação da infraestrutura legal em volta do normativo para garantir que os agentes do mercado estivessem confortáveis para negociar o ativo e que ele tivesse liquidez, segundo explicou Masagão. Uma das garantias, por exemplo, é ter todas as notas fiscais da venda do etanol registradas na ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis para registrar o CBIO. “Temos um agente centralizado para garantir a lisura do processo e é com base no registro na ANP que o ativo é convertido em um ativo financeiro, que é registrado e escriturado na B3 para custódia e negociação”, detalhou Luiz Masagão, que coordenou o painel.
Desafios e oportunidades — O primeiro passo, de garantir a lisura para o sistema financeiro brasileiro ter segurança, foi dado, apontou Evandro Gussi. Agora, o momento é de adaptação a esse mercado — e não só no Brasil, mas também no exterior, em um processo que inclui empresas lançando metas voluntárias ou aderindo às metas compulsórias dos países que apresentaram NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada).
“Agora temos que melhorar, por um lado, a nossa adaptabilidade às exigências dos mercados internacionais de crédito de carbono e melhorar o processo no trabalho com ANBIMA da racionalidade do fluxo econômico e financeiro do CBIO”, apontou Gussi.
Dentro do processo do mercado financeiro, o presidente da UNICA avalia que foi atingido o nível de sofisticação, segurança e liquidez. “Nossa grande ambição é que o CBIO esteja, cada vez mais, adaptado para o mercado financeiro trabalhar. Não adianta querer adaptar o mercado financeiro ao CBIO, mas é o CBIO que tem de se tornar mais adaptado a esse ambiente e ser um dos principais suppliers de crédito de carbono nas próximas décadas”, completou Gussi.