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ANBIMA SUMMIT: Piora das condições financeiras contamina projeções para economia em 2022

Painel desta manhã reuniu economistas do mercado em debate sobre estimativas para o PIB e inflação

O anúncio do governo federal de que pretende financiar um programa de transferência de renda com recursos fora do teto dos gastos levou a uma piora acentuada das chamadas “condições financeiras” desde a última semana. A queda do Ibovespa para o patamar dos 110 mil pontos, a inclinação da curva de juros de longo prazo e a disparada do dólar já contaminam as projeções para a atividade econômica em 2022, em um cenário agravado pela alta da inflação e a perspectiva da volta da taxa básica de juros para o patamar de dois dígitos. Esse foi o pano de fundo do painel “O que está por vir no cenário econômico brasileiro”, realizado na manhã desta terça-feira, 26, no ANBIMA Summit.

“O índice de condições financeiras já está no terreno contracionista e reduzimos a previsão do PIB (Produto Interno Bruto) para 0,4% em 2022, mas já não é descartada uma recessão. Podemos ter descontrole inflacionário e um quadro de estagflação”, opina Carlos Kawall, diretor da Asa Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, em referência a um cenário de baixo crescimento econômico ou recessão com alta inflação.

O economista-chefe do Bradesco e moderador do painel, Fernando Honorato, pontuou que os eventos da última semana representaram um “ataque frontal” ao teto de gastos. Criada em 2016 no governo Michel Temer (MDB), essa regra fiscal limita o crescimento das despesas do governo à inflação do ano anterior e é considerada, no jargão dos economistas, a “âncora” fiscal que aponta o compromisso do governo com o equilíbrio das contas públicas e a sustentabilidade da trajetória da dívida.

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Ao anunciar a criação do Auxílio Brasil – programa de transferência de renda que substituirá o Bolsa Família – rompendo as regras do teto, o governo trouxe muita preocupação ao mercado, na visão da economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi. “A regra do teto foi criada para controlar a inflação, dar potência à política monetária e fazer frente a uma crise severa, como a de 2015 e 2016, em que perdemos quase 7% da renda por irresponsabilidade fiscal”, diz. Com os eventos da última semana, “podemos voltar a ter queda de renda, queda de PIB, pressões inflacionárias e perda de potência de instrumentos de política monetária”, completa Ana Paula, para quem é possível criar um programa social temporário respeitando as regras do teto.

Pressões inflacionárias crescentes - O desrespeito às regras de austeridade fiscal ocorre em um momento de fortes pressões inflacionárias que contaminam as projeções de crescimento da atividade econômica. Nos últimos 12 meses, até setembro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumula alta de 10,25%. Divulgado nesta terça-feira, o IPCA-15, considerado a “prévia da inflação”, teve alta de 1,20% em outubro, o maior percentual para esse mês desde 1995.

O agravante, segundo Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiuna Investimentos e ex-diretor do Banco Central, é que os dados do IPCA-15 divulgados nesta terça ainda não têm relação com os eventos políticos recentes e a “erosão gradual ou nem tanto assim” da credibilidade fiscal. Em outras palavras, o cenário de inflação em alta pode piorar e, para fazer frente à carestia, o BC será obrigado a subir os juros em um patamar acima do que antes era projetado pelo mercado. “O BC já vem com a missão de colocar a inflação na meta, mas os choques na expectativa da trajetória da dívida minam a eficácia dos instrumentos de política monetária. A estabilidade monetária precisa da âncora fiscal que foi minada na semana passada, o que tornou mais difícil a missão de trazer a inflação à meta em 2022 e 2023”, diz. “Não é um ambiente bom para economia”.

Azevedo lembra que a inflação é um fenômeno que foi potencializado globalmente durante a pandemia, com uma série de choques que incluem dos preços de commodities às disrupções de cadeias produtivas que elevaram preços de produtos e insumos. No Brasil, o cenário foi exacerbado (altas nos alimentos, combustíveis e energia elétrica) e um forte movimento de depreciação do dólar desde 2020. “O BC busca criar espaço para que esses choques se revertam antes da inflação de serviços voltar, já que este segmento está se reaquecendo diante da maior flexibilização social causada pela vacinação. Mas eles são maiores e mais persistentes do que o esperado e ao mesmo tempo ainflação de serviços começa a crescer. O BC já vinha subindo a taxa de juros antes do choque do teto de gastos. O trabalho já era difícil”, diz.  

Juros acima do esperado - O Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne hoje e amanhã, 27, e a aposta dos economistas do mercado é de que o ciclo de aperto monetário continue para ancorar as expectativas crescentes de inflação. Para Carlos Kawall, o ciclo de alta da Selic será mais potente do que o projetado. “Se o BC estiver imbuído da missão de colocar (a inflação de) 2022 na meta, ou fizer tudo ao seu alcance, acho que os juros não ficarão mais nos níveis que prevíamos até a semana passada, em torno de 10,5%. Provavelmente será um nível próximo de 12%, com alta de 200 pontos na reunião de amanhã”, prevê.

Os economistas convidados pelo ANBIMA Summit são membros do nosso Grupo Consultivo Macroeconômico, que é coordenado por Fernando Honorato.
 

 

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