ANBIMA Summit: previsibilidade de políticas pós-pandemia pode ditar apetite do investidor por ativos emergentes, dizem economistas
Interesse por papéis da América Latina está no menor nível da história, segundo pesquisa do J.P. MorganA retomada do crescimento, o combate à inflação e a retirada dos estímulos monetários e fiscais vão ditar o interesse do investidor por ativos emergentes, segundo os economistas que participaram do painel “Por dentro da mente do investidor estrangeiro: o que pensa do Brasil e dos mercados emergentes”, mediado por David Beker, chefe de economia e estratégia para o Brasil do Bank of America e vice-coordenador do nosso Grupo Consultivo Macroeconômico, durante o ANBIMA Summit. Para eles, os países vivem contextos diferentes, a depender do formato de suas economias e suas relações comerciais, e são as condições fiscais de cada um que vão determinar em que ritmo eles poderão reverter políticas de estímulo para conter a inflação, em meio a um quadro de crescimento global mais baixo.
“A inflação está alta em todo o mundo, mas quando ela sobe nos EUA acaba afetando todo os outros países, porque a inflação em dólar é mundial”, comentou Valentín Carril, economista e estrategista chefe para a América Latina da Principal Internacional. A resposta de grande parte dos bancos centrais do mundo, que subiram as taxas de juros, indica que este não é um problema temporário, embora alguns dos fatores de pressão de preços sejam momentâneos. “Isso significa que o aumento de juro vai acontecer e deve ser maior do que se esperava há seis meses”, disse.
A pandemia começou em um cenário de intensos estímulos fiscais e monetários em todo o mundo, muitos dos quais continuaram quando as economias desaceleraram em 2020. A reversão destes estímulos já está em andamento, mas o ritmo e a magnitude do aperto monetário ainda são incertos, porque o risco de inflação é alto.
“Agora temos duas fontes de preocupação. A primeira é que ainda não solucionamos os gargalos na oferta de suprimentos. E temos ainda uma crise energética global, com aumento do preço do petróleo, que impacta também outras commodities”, comentou Marcela Rocha, economista-chefe da Claritas, para quem o desafio a ser enfrentado pelos emergentes está começando agora, em uma conjuntura global complexa.
Para ela, a recuperação da economia global e os programas de vacinação puxaram um grande fluxo de investimentos para mercados emergentes em 2021, mas o desafio para esses países começa agora, com uma conjuntura global complexa. “Essas nações não têm tanto espaço para ajustes quanto às desenvolvidas, e podem ficar na lanterna em termos de recuperação e reação”, disse a economista, que prevê queda do apetite por ativos de mercados emergentes nos próximos anos.
Em meio a estas incertezas, o investidor já está ficando mais cauteloso. Pesquisa do J.P. Morgan notou que o apetite por ativos emergentes está menor. No caso da América Latina, o entusiasmo é o mais baixo da série histórica, e o Brasil lidera as preocupações com a região, contou Cassiana Fernandez, economista do banco norte-americano, durante o painel.
Transparência pode conter perda de apetite por ativos brasileirosValentín Carril destacou que índices preço-lucro apontam cenários muito diferentes entre os países. Em cálculos da Principal feitos no começo de outubro, este índice foi de 19 vezes para o mundo, mas nos emergentes ele caiu para 13. No caso da América Latina, o do México está em 15, o do Chile ficou na casa de 10 e o do Brasil está em 7,5 vezes.
“Isso reflete a visão de que há maior risco político nas próximas eleições. Além disso o Brasil tem sofrido principalmente com a seca, que não só aumenta a inflação, mas também as incertezas,” afirmou Carril. “Ainda há investimento estrangeiro direto, o que significa confiança no longo prazo. Mas no curto prazo há muita preocupação”, disse, acrescentando que a casa tem recomendado a seus clientes reduzir as alocações em ativos brasileiros.
Em meio a este cenário desafiador e incerto para os emergentes nos próximos anos, os receios com o Brasil se destacam. Além das eleições, que se torna uma dúvida adicional, os investidores em geral e, principalmente os estrangeiros, vêm buscando maior clareza sobre a solvência do país e sua política monetária.
“O investidor olha risco e retorno, mas é pragmático. O gatilho para o estrangeiro aproveitar o preço dos ativos é confiança e previsibilidade”, comentou Marcela. “O Brasil vai precisar mostrar que tem coordenação política, coerência, e que o novo regime fiscal não será de irresponsabilidade. O equilíbrio fiscal pode até ser pior do que o anterior, mas o investidor quer saber o que esperar”.
Cassiana acrescentou que tem ouvido relatos de receio quanto à capacidade do Brasil de honrar sua dívida. “Para trazer o investidor estrangeiro, é preciso dar mais previsibilidade e gerar confiança de quais decisões serão tomadas, principalmente de que os compromissos serão honrados”, disse.
A economista do J.P. Morgan comentou ainda que é preciso que o país fale também de crescimento nos moldes demandados atualmente. “As prioridades da sociedade mudaram, hoje ela busca crescimento sustentável e mais igualitário. O investidor já entendeu que muita coisa vai ter que mudar para oferecer isso”, concluiu.
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