Congresso de Fundos: Emoções interferem nas decisões de investimento
Apesar de buscarem razões objetivas para investir no mercado financeiro, os investidores acabam tomando decisões baseadas em emoções como lealdade, patriotismo, excesso de confiança e até por influência das condições climáticas, explica Wei Xiong, professor de Economia da Universidade de Princeton, que participou hoje do segundo dia de debates do 7º Congresso ANBIMA de Fundos de Investimentos. “O sol da manhã influencia as pessoas, que tendem a prever se determinada ação vai subir ou não. Se o dia é feio, as pessoas não se sentem aptas a fazer isso”, exemplifica.
As emoções distanciam as pessoas do que seria considerado o portfólio moderno de investimentos, segundo ele. O ideal é incluir na carteira investimentos em ações; segundo, é preciso diversificar os investimentos em ações para diluir os riscos; e, terceiro, é preciso investir pensando no longo prazo, independentemente das variações dos indicadores do dia a dia.
No entanto, de acordo com ele não é isso que acontece na prática, segundo apontam Pesquisas das quais ele participou ou acompanhou na Universidade de Princeton. A emoção e o sentimento de lealdade são alguns dos motivos que complicam o investimento. Ele dá como exemplo os empregados de companhias americanas que investem seus recursos nas ações da própria companhia onde trabalham. Nos Estados Unidos, um terço dos fundos de pensão investe nas ações da própria companhia.
“Se a empresa não vai bem, não só eles podem perder o emprego, mas também o investimento. Isso é chocante para mim.” Além da lealdade, há a questão do patriotismo, que pode ser expresso tanto pelo investimento em companhias nacionais como pelo foco em aplicações no mercado acionário local, sem a aplicação de recursos em mercados acionários de outros países. “Para ter maior diversificação, as pessoas têm que distribuir seus recursos ao redor do mundo. O Brasil é um país muito patriótico, mas em termos de diversificação isso não é muito bom”, afirma.
Outra peça pregada pelas emoções é o excesso de confiança dos indivíduos. Segundo o professor, as pessoas costumam ter uma avaliação muito boa de si próprias em relação aos outros. “90% das pessoas acreditam que estão acima da média. Isso pode ser visto até quando se vai fazer uma prova, e ocorre também nas negociações.” Em sua visão, a alta confiança pode explicar o elevado número de transações que os investidores pessoa física realizam. De acordo com Xiong, no entanto, quem faz mais transações perde dinheiro. Quem negocia menos, ganha mais, segundo estudo que analisou 70 mil contas de investidores no período de dez anos.
A capacidade limitada de atenção do investidor também foi abordada pelo professor como causa de erros de investimento. “Quando recebemos muitas informações sobre ativos não conseguimos processar informações e tomamos um atalho. A capacidade limitada para receber e processar informações tem implicações importantes.”
As pessoas também tendem a esperar que as experiências passadas se repitam no futuro, explica o professor, ao fazer uma analogia com os jogadores de basquete. “Acertar três cestas não diz nada sobre o seu próximo arremesso”, afirmou. Os investidores também fazem isso na bolsa ao escolher as ações. Eles têm a tendência de ficar com os vencedores recentes e se afastar dos que perderam, à espera que o movimento se repita, o que nem sempre acontece.
Aquiles Mosca, superintendente executivo do Santander Brasil Asset Management e membro do Comitê de Educação de Investidores da ANBIMA, exemplifica esta tendência com a história recente do Brasil. Durante os anos 2000, a grande adesão das pessoas físicas à bolsa de valores ocorreu após a escalada das cotações, pois as pessoas imaginavam que a alta continuaria. Depois da brusca queda ocorrida em 2008, uma grande parcela destas pessoas venderam suas posições, o que foi um péssimo negócio.
Outro exemplo é a expectativa dos investidores de que o mercado de imóveis continue a sua tendência de alta acentuada, sem considerar que a economia já anda mais devagar, segundo Marco Bonomo, da Behavior Capital Management.
Para reduzir esta miopia é preciso trabalhar na educação dos investidores, conclui Alexsandra Camelo Braga, diretora-executiva de ativos de Terceiros da Caixa Econômica Federal e presidente do Comitê de Educação de Investidores da ANBIMA, que defende o ensino de educação financeira nas escolas. “Apesar de o dinheiro estar no dia a dia, as pessoas não querem tratar da questão. A gente tem que trabalhar isso. As pessoas têm que ter consciência de cuidar do próprio dinheiro”.