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2025#26 COP30: o que muda para o mercado de capitais?
Regulação Internacional

2025

#26 COP30: o que muda para o mercado de capitais?

O que a COP30 realmente muda para o mercado de capitais

O impacto real da COP30 para o mercado financeiro não está no conjunto de anúncios formais, mas no modo como três movimentos ganharam suficiente para reorganizar risco, preço e governança

  • Adaptação como estratégia financeira, 
  • Carbono regulado como ativo para facilitar a transição e 
  • Natureza como ativo econômico mensurável.

Esses vetores, fortalecidos em Belém, deslocam a discussão climática do campo de compromissos e metas para o da implementação – e é nessa camada que o mercado de capitais passa a encontrar sinais claros sobre alocação de recursos, custo de capital, competitividade setorial e integridade dos instrumentos financeiros.

A decisão global de triplicar os recursos destinados à adaptação em países em desenvolvimento até 2035 marca uma mudança estrutural. Organizações como o WRI (World Resources Institute) afirmam que “a adaptação tornou-se um dos polos estratégicos da década” e esse deslocamento se traduz imediatamente em implicações financeiras: risco físico deixa de ser um tema de políticas públicas e passa a influenciar avaliações de crédito, modelos de seguro e decisões de rating. 

Ao mesmo tempo, quando olhamos para mitigação, estudos recentes, como o levantamento do Instituto Talanoa, estimam que países em desenvolvimento precisarão mobilizar cerca de US$ 2,4 trilhões anuais até 2030 para manter ao alcance o limite de aumento de 1,5 °C da temperatura global em relação aos níveis pré-industriais.

Manifestantes seguram cartazes por ação climática em frente ao letreiro “COP30”.

Fonte: WRI

Esse patamar de necessidade financeira para adaptação coloca infraestrutura hídrica, sistemas de resiliência urbana, soluções baseadas na natureza e seguros paramétricos dentro de uma lógica de investimento e não apenas de mitigação de danos, criando um novo campo de oportunidades – sobretudo para investidores institucionais de horizonte longo.

Uma análise feita pela Laclima (Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action) reforça um ponto que passou quase silencioso nas plenárias, mas que é central para o mercado de capitais: Artigo 9 do Acordo de Paris continua sendo o maior teste de credibilidade da arquitetura climática internacional

O Artigo 9 determina que países desenvolvidos devem prover financiamento “novo, adicional e previsível” para apoiar mitigação e adaptação em países em desenvolvimento, em linha com o princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. No entanto, segundo o Resumão feito pela Laclima, a COP30 deixou evidente que esse compromisso permanece distante de sua materialização plena: o fluxo financeiro atual não apenas é insuficiente, como opera abaixo da escala requerida para limitar o aumento de temperatura. 

A Laclima observa que a conferência expôs novamente a assimetria entre a ambição declarada e os recursos mobilizados, indicando que sem uma correção desse descompasso — tanto em volume quanto em previsibilidade — nenhum avanço em adaptação ou transição justa será sustentável no longo prazo.

Carbono e natureza entram na camada operacional da transição

O avanço regulatório do Artigo 6 do Acordo de Paris, com a aprovação das metodologias base do mecanismo 6.4 e a definição de regras de transição para os projetos do antigo MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), reduz incertezas que há anos travavam liquidez e confiança no mercado de carbono. A análise técnica da Mayer Brown ressalta como essas decisões estruturam a integridade ambiental e jurídica dos créditos internacionais.

Em paralelo, a formação da Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, liderada pelo Brasil e apoiada por China e União Europeia, marca o primeiro passo rumo à interoperabilidade entre sistemas nacionais.

Ainda não há harmonização plena, mas há uma direção inequívoca: carbono regulado deixa de ser tema de nicho e passa a operar como infraestrutura de transição, com implicações diretas para o valuation de empresas, estratégias de portfólio e futuras políticas de precificação de emissões.

Mesa de autoridades na COP com painel “Tropical Forest Forever Facility” ao fundo, em ambiente institucional.

Fonte: COP30

A natureza, por sua vez, assume de forma definitiva um lugar dentro da arquitetura financeira. O TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre)abriu sua primeira rodada com US$ 5,5 bilhões já comprometidos, inaugurando um modelo que combina métricas de desempenho, monitoramento por satélite e salvaguardas socioambientais. Essa estrutura híbrida – entre capital público e privado – eleva o padrão de governança exigido para instrumentos baseados em natureza, desloca a lógica tradicional dos créditos florestais e abre espaço para novos modelos de financiamento ancorados em impactos positivos para a natureza. 

Para o mercado brasileiro, trata-se de um diferencial: o país passa a atuar simultaneamente na modelagem de instrumentos e na articulação política, ampliando sua capacidade de atrair capital em segmentos de alto potencial, sobretudo em contextos onde países emergentes concorrem por uma fração dos recursos climáticos globais.Homem adulto de pele branca, barba curta e cabelo preto, usando terno, falando ao microfone.

Durante o evento "SYNC: Traduzindo os impactos da COP30 nos negócios e na sociedade", no calor do pós-COP, Marcelo Behar, enviado especial da COP30 para Bioeconomia, reforçou que o avanço dessa agenda da natureza precisa ser acompanhado pela expansão da bioeconomia. Para Behar, esse é o ponto de convergência entre clima, natureza e finanças.

 “O trabalho da Anbima é fundamental para dar escala ao Desafio da Bioeconomia. Estamos falando de um mercado que deve crescer pelo menos um trilhão de reais até 2030”

No mesmo evento, Marina Cançado, da ATO/Converge Capital, destacou que a COP30 no Brasil reduziu de forma significativa a assimetria de informações que historicamente limita a atração de capital para soluções climáticas e de natureza. Para ela, a presença do mundo em Belém permitiu enxergar a escala real das soluções brasileiras e a sofisticação dos instrumentos financeiros em desenvolvimento, especialmente aqueles voltados à mitigação de riscos, como o cambial. 

Mulher adulta de pele branca, cabelos castanhos ondulados na altura dos ombros, blusa verde, olhar para a câmera.

Marina lembrou que “os investimentos se movem na velocidade da confiança”. Ela afirma que vivenciar os desafios e as oportunidades da Amazônia, incluindo as 30 milhões de pessoas que vivem na região, reforça o papel do país na transição justa e na expansão de soluções baseadas na natureza que podem ganhar tração nos próximos anos.

O conjunto desses movimentos indica uma transição: o risco climático deixa de ser variável externa e passa a ser elemento constitutivo da definição de ativo financeiro. Setores expostos ao risco físico (infraestrutura, logística, energia, agronegócio) verão esse componente afetar custo de capital e exigências de disclosure. Setores intensivos em carbono enfrentarão pressões crescentes decorrentes da consolidação dos mercados regulados. E ativos naturais ganharão relevância dentro de portfólios de longo prazo, à medida que instrumentos de integridade elevada se tornarem mais acessíveis e auditáveis.

Para o Brasil, a COP30 não apenas reafirma protagonismo técnico, mas amplia as expectativas sobre a capacidade do país de converter sua posição em instrumentos financeiros robustos, governança confiável e atração de capital em escala.